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O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

III Capítulo / Página 60

Continuo a ler o mesmo livro. Há meses que o levo para onde quer que vá. Há dias que evito cruzar-me com ele. Nesses dias, sombrios fora de mim, volto a ouvir as mesmas canções. As que outrora me entorpeceram com as suas melodias, as que dantes repeti incessantemente até conhecer o perfil das mais diversas cadências, até que mais nenhuma tonalidade chegasse para me arrebatar.

De tempos a tempos, deixo o corpo inerte maravilhar-se como se fosse a primeira vez. E todo ele flui pelos acidentes de cada pauta.

Revivo o tempo, aclaro as memórias, enxugo os desgostos ou o simples cansaço que brota em pequenos soluços inaudíveis e, assim simplesmente, consciente da amargura, anseio ver o mundo pelos olhos de uma criança.

 

 

Maestrina

O céu estava sem forma, pintado por um cinzento claro e baço. Proeminentes, permaneciam os troncos de uma ramada descoberta pelas vicissitudes de um outono caduco.

O contraste permitiria, certamente, que o olhar se detivesse no estendal, perfeitamente alinhado com a interface de duas tonalidades distintas.

Ela tinha parado. Suspensa no tempo, embebida pela incerteza de existirem flores para lá da intensa neblina. E a noite ainda há pouco era uma criança.

Mas ela… Ela já via de outra forma a claridade.

Já deixava que o vento penetrasse todos os poros e que o orvalho escorresse pelas pétalas dianteiras. Já gostava de ter frio por deixar que o vento lhe acariciasse as maçãs do rosto pela manhã. Já pensava em encher os olhos, em guardar tudo para si, em inalar o mundo de uma só vez, em sentir os pequenos detalhes e os parapeitos húmidos, um tanto ou quanto condensados.

E, atrás dela, a melodia estimulava as sensações. Era protagonista daquele momento, daqueles instantes fugazes em que a paz se apoderava do espírito.

E, no entretanto, as colcheias de um caminho por desenhar, escapuliam-se das pautas para o bloco de notas à retaguarda.

E ela não parava.

Escrevia sem dar conta de como se transpunha para o papel, de como era maestrina do seu próprio pensamento.

Era impossível domar os instintos. Impossível não querer beber da adrenalina que o fruto proibido apetecia.

Impossível não sentir a discrepância das suas vozes, perceber a dimensão da sua tessitura e a importância de todos os instrumentos da orquestra.

Como os sentimentos na vida.

Entardecer de enternecer

 

Perdi-me num rodopio.

Vi-te do meu canto a explorar a floresta, no meio das árvores altas e robustas de folhagens verdes e impetuosas. Parei para te ver pisar aquele pequeno trilho de gravilha num passo certo.

Junto, vi a máquina fotográfica que te pendia sobre o peito, o cabelo que esvoaçava, uma aura indomável.

Vi-te pelos olhos que esfumei antes de ser dia.

Junto, a mochila de ganga com cordões cor de pérola a emaranhar a desembocadura pela qual, certamente, palpitavam as palavras dos livros filosóficos que trazia.

 

Já paraste para sentir?

Quantos pensamentos cabem numa colher de sopa?

Quantas vezes nos deixamos atropelar pelos desejos obstinados da nossa imaginação? Quantas vezes sobrepomos os dilemas aos momentos, o certo ao maravilhoso, a incerteza à escolha de um caminho alternativo?

Muitas.

Multiplicam-se sem que os parênteses definam prioridades ou os expoentes sejam a fração com que dividimos, em segundos, a vida metódica que escolhemos.

 

 

Na próxima paragem

Conheço-te bem: os traços cravados na palma da mão, o olhar distante, o cabelo rebelde, o mistério à deriva.

Sonho contigo, mesmo que acordada: as corridas matinais à beira mar, a areia molhada, a alma vazia…

Penso em ti, irremediavelmente: os gelados partilhados, os segredos divididos, os banhos de sol, a neve a derreter por baixo do calor dos nossos pés.

Penso, como se visse numa tela um futuro a passar em câmara lenta. Sonho, como se fosse realidade o cruzamento dos nossos dedos, o enlace dos nossos gostos, a fusão dos corações, o preenchimento da alma.

Sinto, como se vivesse essa ilusão: as páginas da nossa história, o diário dos nossos desencontros, os olhares reluzentes, as palavras a negrito, a pontuação descuidada, o sentimento em número ímpar.

 

 

Pensar em nada, sentir tudo!

Corri pelos sonhos presos à calçada, dobrei esquinas, vivi os cheiros, amei os pedaços de tinta e o esvoaçar das gaivotas que cruzavam o céu em trajetórias desalinhadas, curvilíneas e arrebatadoras.

Cá em baixo, a magnificência de uma sombra desnorteada e passageira, o cheiro das sardinhas a palpitar na brasa, o ómega 3 de uma vida, a cidade em dias amenos.

Atravessei a avenida em rodopios despreocupados, os braços erguidos em movimentos torsionais, as danças sem ritmo, a leveza dos “pés de chumbo” descalços, a despreocupação total.

Só eu! Eu e todos os sentidos, como nunca, apurados.

 

 

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