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O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

III Capítulo / Página 60

Continuo a ler o mesmo livro. Há meses que o levo para onde quer que vá. Há dias que evito cruzar-me com ele. Nesses dias, sombrios fora de mim, volto a ouvir as mesmas canções. As que outrora me entorpeceram com as suas melodias, as que dantes repeti incessantemente até conhecer o perfil das mais diversas cadências, até que mais nenhuma tonalidade chegasse para me arrebatar.

De tempos a tempos, deixo o corpo inerte maravilhar-se como se fosse a primeira vez. E todo ele flui pelos acidentes de cada pauta.

Revivo o tempo, aclaro as memórias, enxugo os desgostos ou o simples cansaço que brota em pequenos soluços inaudíveis e, assim simplesmente, consciente da amargura, anseio ver o mundo pelos olhos de uma criança.

 

 

Sempre o mesmo tema: Humanidade

Sempre o mesmo tema.

Conversa fiada, passatempo de quem quer conhecer mais do que o seu umbigo enfarruscado. A garrafa vai a meio e a sabedoria destroca-se em goles profundos.

Vê-se o horizonte e o adormecer ao relento das setes vidas felpudas.

Vê-se o bater das chinelas rua abaixo e rua acima. Apregoam-se os melhores negócios e a cidade silencia, varre o mundo e a certeza. O tempo e a calmaria. A luz e a nostalgia.

Uma vida de trabalho, de pele tisnada pelo sol e pelos filhos.

 

 

No fim da linha

Levaste o tempo que foi preciso. A indumentária do costume, a mente aberta, o desejo de te permitires viver.

Levaste o tempo que foi preciso para rir, para lutar e para te acostumares à grande cidade que habita dentro de ti. A selva dentro da civilização, dos bons costumes, da aparência, do clichê.

Tu, o menino das corridas no asfalto, das calças rotas e desbotadas, das vontades descabidas, de estúpidas e perfeitas paixões, de novos dias e novas sementes, de novas idades e antigas caras, de novas crenças e uma só banda sonora.

És um. O único e primeiro algarismo que aprendi a contar na efemeridade dos meus rasgos de lucidez.

Escolhi-te a ti para me permitir voltar atrás, ao tempo em que era o abstrato que eu percebia, em que o mundo real era visto de dentro para fora e não me invadia a alma pelos olhos. O mais fácil.

 

 

Desaires

             

 

Inacreditáveis os dias em que somos atropelados pelos desígnios de um caminho desalcatroado.

Terra impermeável ao esforço, declínio emocional, sonho em capotagem.

Um desaire que não se ultrapassa, que leva tempo e lágrimas a esvair pelo rio.

Tantas perguntas e murros na mesa. O desespero de um “porquê?” que vale por mil e uma sentenças.

Eu não percebo, o vizinho tenta perceber e todos os outros esticam o braço e prolongam o indicador em direção aos teus olhos ou, por outro lado, nem se importam se estás bem ou se estás mal porque é a tua vida. É a tua cruz.

 

 

Meteorologia

Às vezes, a vida não é fácil.

Passa por nós, leva-nos de arrastão e lá vamos aos trambolhões.

Ficamos sem vontade de agir e as palavras secam. Não sabemos o que fazer.

Perdemos a direção, questionamos o rumo e todas aquelas escolhas que nos conduziram a este beco com tantas saídas e tão pouca luz.

Olhamos para os lados, cabisbaixos, e ninguém nos estende a mão, ninguém é quem procuramos, ninguém é aquilo que queremos.

 

 

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