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O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

Não! Não vou por aí...

A vida ainda me espanta!

Esta chama que permanece com fulgor numa procura ininterrupta pela claridade. Este tempo indomável que se dilui nas margens do rio. Esta estrela, em céu aberto, que o rasga e enviesa num grito de imensidão vulnerável. Esta esfera comedidamente redonda e tão pouco singular.

À medida que subo os degraus, perco-me por não me deixar guiar, desdobro-me em múltiplas emoções por não me querer conter. Vou de mãos livres e de coração cheio, dispensando os corrimões pintados, cobertos por tinta num processo progressivo de maceração.

É esta a penitência de quem não esquece o seu passado. Trata-se de um corretivo para quem, como eu, vê o mundo turvo. Para quem, como eu, passou, ouviu e levou consigo uma herança de verdades certas e inquestionáveis, das quais, inconscientemente, ousou duvidar.

Eu que sou cinza, somente esta poeira onde os passos se aligeiram e as vozes ecoam, onde impossível seria contestar aquilo que vejo, mas onde o cristalino se afasta cada vez mais da retina.

Desde pequenos que nos cortam as asas.

 

 

Pouco meu

Às vezes olho para mim de lado.

Como um estranho que julga conhecer o turbilhão de pensamentos que em passos largos se dissolvem por entre rotinas cruzadas e transeuntes incomuns.

Às vezes até sinto que o que sou é pouco meu. Porque me é estranha aquela sensação de estranheza.

E julgo, perante os dedos que se tocam, ser pouco mais do que uma defesa contra cada fragmento estilhaçado na penumbra.

Pedaços de sonho hipotéticos. Utopias de banda larga.

Estou tão fora como dentro, desmembrada da fisiologia sem querer ir nem querer voltar.

E somam-se os dias: um valor absoluto e pesado do que perdi por não saber o que querer ganhar.

Tanta vida no Inverno. Tantas ondas e um mar inerte.

Como eu. Sem condições ou metafísica. Sem futuro nem presente.

Um eu doente. Da alma. Do soro que escorre ignominiosamente.

Autoimune na resposta. Em desalinho. Pelo cansaço escrito em prosa e a vida entoada em hino.

III Capítulo / Página 60

Continuo a ler o mesmo livro. Há meses que o levo para onde quer que vá. Há dias que evito cruzar-me com ele. Nesses dias, sombrios fora de mim, volto a ouvir as mesmas canções. As que outrora me entorpeceram com as suas melodias, as que dantes repeti incessantemente até conhecer o perfil das mais diversas cadências, até que mais nenhuma tonalidade chegasse para me arrebatar.

De tempos a tempos, deixo o corpo inerte maravilhar-se como se fosse a primeira vez. E todo ele flui pelos acidentes de cada pauta.

Revivo o tempo, aclaro as memórias, enxugo os desgostos ou o simples cansaço que brota em pequenos soluços inaudíveis e, assim simplesmente, consciente da amargura, anseio ver o mundo pelos olhos de uma criança.

 

 

Cor do vento

Voltaram os dias cinzentos, as luzes pálidas, os rostos cravados no que foi e já não é: nos acontecimentos intragáveis, nos dias irreversíveis, nas memórias imaculadas que restam do sonho inoportuno do horizonte.

Voltaram os passos largos e voláteis dos corredores assoberbados e voltei eu também.

Vim para viver a nostálgica saudade do ontem, a ansiedade irremediável do hoje e a incerteza de todos os outros dias que suporto.

Os novos desafios, os dilemas, as novas oportunidades. Enfim! Os momentos que me fazem estar certa de que também o passado é um tempo incerto. De que também viver nele será somente redescobrir o mesmo erro, repeti-lo, rejeitá-lo, ser-lhe servo e crescer.

Acredito que a adversidade nos faz melhores: cientes dos obstáculos, trabalhadores em prol de uma causa. E, muitas vezes, essa causa somos nós próprios!

 

 

Ai costa, a vida costa!

Damos voltas e voltas. A vida não nos satisfaz ou, provavelmente, nós é que não nos deixamos satisfazer pelos seus pequenos prazeres.

Seja qual for a hipótese mais concreta, a verdade é que nos queixamos de tudo. Barafustamos todos os dias porque o estado do tempo raramente nos apraz. O frio é demais, o calor insuportável. A chuva, que faz falta para que as sementes germinem, tarda em encharcar-nos os pés. E o sol, essencial para que a densidade óssea se mantenha saudável, decide jogar às escondidas no dia em que precisamente o nosso rosto acudia por um cintilo puro, quente e um pouco mais gentil.

O problema é que até a ausência de problemas é problemática.

Sem vitamina D, que o sol nos valha, deixamos de poder fazer queixinhas à vontade porque, até a contrariedade de que somos feitos, acaba por quebrar aos poucos.

E queixamo-nos tantas vezes…

Maestrina

O céu estava sem forma, pintado por um cinzento claro e baço. Proeminentes, permaneciam os troncos de uma ramada descoberta pelas vicissitudes de um outono caduco.

O contraste permitiria, certamente, que o olhar se detivesse no estendal, perfeitamente alinhado com a interface de duas tonalidades distintas.

Ela tinha parado. Suspensa no tempo, embebida pela incerteza de existirem flores para lá da intensa neblina. E a noite ainda há pouco era uma criança.

Mas ela… Ela já via de outra forma a claridade.

Já deixava que o vento penetrasse todos os poros e que o orvalho escorresse pelas pétalas dianteiras. Já gostava de ter frio por deixar que o vento lhe acariciasse as maçãs do rosto pela manhã. Já pensava em encher os olhos, em guardar tudo para si, em inalar o mundo de uma só vez, em sentir os pequenos detalhes e os parapeitos húmidos, um tanto ou quanto condensados.

E, atrás dela, a melodia estimulava as sensações. Era protagonista daquele momento, daqueles instantes fugazes em que a paz se apoderava do espírito.

E, no entretanto, as colcheias de um caminho por desenhar, escapuliam-se das pautas para o bloco de notas à retaguarda.

E ela não parava.

Escrevia sem dar conta de como se transpunha para o papel, de como era maestrina do seu próprio pensamento.

Era impossível domar os instintos. Impossível não querer beber da adrenalina que o fruto proibido apetecia.

Impossível não sentir a discrepância das suas vozes, perceber a dimensão da sua tessitura e a importância de todos os instrumentos da orquestra.

Como os sentimentos na vida.

Eu achava...

Celebrar a vida!

Fui crescendo com a certeza de que a palavra impossível era um mito.

Fui crescendo a acreditar que um dia todos os meus sonhos se iriam realizar. Que eu poderia ser, de facto, quem eu quisesse.

Que não seria o local onde nasci que me impediria de voar, que não seria o meu género que poderia limitar a minha vontade de ir mais longe e que não seriam nunca os outros a escolher o meu caminho.

Fui crescendo a acreditar nas pessoas, no amor, no respeito, na natureza, nos valores, no céu e no inferno.

E agora todas essas “verdades” me destroem por dentro.

Está tudo tão longe… É tudo tão incerto e difícil de alcançar!

Eu achava que quanto mais crescesse e amadurecesse mais perto estaria das minhas metas. Pensava que quanto mais experimentasse a vida, mais confiante viveria nela.

Mas enganei-me. Enganei-me redondamente. Encontrei espinhos e pétalas murchas pelo caminho. E não estava preparada.

Eu que cresci a ouvir os outros, os meus, a rirem. Rirem até que a barriga doesse e os músculos precisassem, por fim, de relaxar.

Cresci a pensar no futuro. Um bom futuro, um destino ainda melhor.

E agora oiço-os todos, do mesmo modo, a falar dele. Do futuro. Do dia que todos queremos longínquo: o último.

 

 

Instagramirrealidade

Talvez por dentro o sol se desdobre.

Seja parte repartida de si, poeira reluzente, intensidade, contraste e saturação.

Talvez o rio adormeça na margem, a lua seja nova e a maré um pouco cheia.

Seja o pão a entrar para o forno, o cigarro apagado, a constelação em gravidade.

Talvez o medo assombre o teu descanso, o teu corpo recalcado, a tua mente entresilhada.

E deambules e bamboleies e voltes ao início da estrada.

Talvez por dentro o pleno seja vazio e disfuncional.

Irreconhecível como as figuras à mercê do nevoeiro.

E por fora, tudo o que sentes, deveras intemporal como se o mundo parasse e tu fosses o passageiro.

Talvez seja sorte o seu parecer estático, o acontecer só dentro de mim e fora de ti, mas os filtros esgotam a certeza do que viemos fazer aqui.

Ajustamos o tempo e preferimos as sombras à luminosidade.

Enganamo-nos no contraste e de negro realçamos a realidade.

Talvez por dentro o melhor seja definir uma certeza porque com a lente vês, mas não sentes a tua natureza.

Seja como for: liga-te à terra, constrói a tua própria galeria e define a tua vida.

Porque talvez regresses ao menu e nele descubras o bloqueio como ponto de partida.

Obrigada, Capazes!

 

2017 trouxe-me uma grande surpresa neste seu primeiro dia!

A minha primeira página está escrita e, desta vez, podem lê-la na plataforma Capazes.

Todos somos capazes. Capazes de tudo!

E é com esta viagem de comboio, este texto Baseado numa história real, que se concretiza um sonho.

Se ainda não conhecem as Capazes, não percam mais tempo. Porque juntos somos, sem dúvida, mas fortes e podemos contribuir para um mundo melhor. Um mundo mais justo, um mundo igual para todos, sem discriminações.

Juntos podemos denunciar o que se passa à nossa volta. 

E podemos contribuir com pequenos gestos para que Homens e Mulheres sejam vistos de igual forma pela sociedade, tendo os mesmos direitos e os mesmos deveres. 

Espero-vos por lá.

FAÇAM-SE OUVIR, CAPAZES! 

 

Página 366

 

O último dia do ano.

Há sempre muito para dizer. Fazemos os balanços e traçamos novas metas. Olhámos para trás e queremos muito, nesse instante, olhar para a frente. Sabemos os momentos que nos marcaram, mas sabemos também onde queremos ir. E é essa ideia que nos move.

Maravilhoso pensar em tantos outros dias para poder fazer mais, para poder fazer diferente, para aprender, para crescer, para viver…

Este ano, não escrevi sobre o que li nem sobre as músicas que escutei, nem tão pouco sobre os momentos mais especiais de 2016. Não escrevi porque fui escrevendo essa mesma história ao longo do tempo, ao longo de todos estes dias, durante todo este ano, na minha pele.

Envelheceu-me, 2016. Trouxe-me outra bagagem, ensinou-me muito!

 

 

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