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O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

Não! Não vou por aí...

A vida ainda me espanta!

Esta chama que permanece com fulgor numa procura ininterrupta pela claridade. Este tempo indomável que se dilui nas margens do rio. Esta estrela, em céu aberto, que o rasga e enviesa num grito de imensidão vulnerável. Esta esfera comedidamente redonda e tão pouco singular.

À medida que subo os degraus, perco-me por não me deixar guiar, desdobro-me em múltiplas emoções por não me querer conter. Vou de mãos livres e de coração cheio, dispensando os corrimões pintados, cobertos por tinta num processo progressivo de maceração.

É esta a penitência de quem não esquece o seu passado. Trata-se de um corretivo para quem, como eu, vê o mundo turvo. Para quem, como eu, passou, ouviu e levou consigo uma herança de verdades certas e inquestionáveis, das quais, inconscientemente, ousou duvidar.

Eu que sou cinza, somente esta poeira onde os passos se aligeiram e as vozes ecoam, onde impossível seria contestar aquilo que vejo, mas onde o cristalino se afasta cada vez mais da retina.

Desde pequenos que nos cortam as asas.

 

Tingem-nos a pele em várias camadas e, quando tentamos descobrir o que por detrás das mesmas se encerra, surgem os retoques. Não há como não gerar um produto perfeito, uma obra-prima bem instruída porque, no fundo, é isso que somos: um depósito dos sonhos não concretizados, um cartão-de-visita para aqueles que contribuíram para a nossa formação, o albergue de todas as esperanças, um acabamento valioso…

Mas nós não queremos ser uma conclusão. Não queremos permanecer presos a um molde inicial. Não queremos perpetuar tradições macabras. Não queremos ser fósseis vivos nem pessoas mortas, sem alimento, sem vontade e sem opinião.

Queremos ser leves. Queremos que a vida nos apaixone. Queremos um lugar onde seja possível aprender a errar. Queremos conquistar o nosso espaço e ir com o vento descobrir o dom aprazível da primavera. Queremos simplicidade. Um mundo onde possamos ser genuínos e espontâneos.

Ser. Só. Um só que, por si só, baste!

Talvez o tempo nos ensine a recuperar essa beleza, a idade nos permita conquistar o medo e a emoção nos conceda um novo olhar sobre o mundo. Como se fosse a primeira vez… Aquele primeiro grito de quem agarra a vida em pleno, aquele primeiro choro de uma independência indescritível.

Talvez precisemos de nos maravilhar com a imensidão disposta diante de nós, contemplando o nascer e o pôr do sol, fitando o dia de hoje como uma edição limitada. Deixando que a luz venha de dentro e que os momentos não se conceptualizem como as palavras, que os outros não sejam rótulos ou aparências redutoras e que o nosso espírito não tenha prazo de validade.

Talvez precisemos de ser livres, descrendo o livre-arbítrio.

Em filosofia, percebi que a história que hoje escrevo não começou numa folha em branco. Entendi que tudo isto não é mais do que o resultado de um conjunto de sobreposições que têm por base uma série de ensinamentos, de tradições seculares, de valores culturais característicos, de crenças religiosas, de diversos factos quase irrefutáveis.

Na altura, lembro-me de chorar copiosamente. O mundo tal como o conhecia estava a ser desconstruído aos poucos. Eu colecionava perguntas e não encontrava as respostas. Eu pensava na morte e tinha medo.

Comecei a aperceber-me das desigualdades e das injustiças e, aí, quis crescer cada vez mais devagar. Quis que não me roubassem a inocência, quis aprisionar dentro de mim a ingenuidade e eternizar a pureza com que olhava para o coração dos outros.

Mas a vida acontece.

Deixamos de acreditar que tudo “era uma vez” e passamos a constatar que a nossa liberdade é condicionada no momento em que nascemos. Porque se a vida é uma dádiva, vivê-la pressupõe condições irreversíveis.

Há coisas que jamais poderemos mudar e uma delas é a sociedade em que estamos inseridos, a sociedade que nos formata desde crianças. A verdade é que não conseguimos evitar que nos conduzam por um determinado caminho quando ainda nem sequer somos capazes de caminhar, pelo que, nos resta apenas a oportunidade de escrever por cima, sem riscos ou pedaços de borracha fragmentada.

Resta-nos reinventar aquilo que somos. Esfolar o que permanece impregnado na pele, tendo a certeza de que pelo menos uma demão ficará lá. Para sempre.

Resta-nos o poder de dizer “Não, não vou por aí”.

Tudo isto é um ciclo!

Um período onde o riso fácil se torna comedido e a felicidade se engaveta. Onde o barulho do entusiasmo dá lugar aos rostos ponderados e os dentes deixam de abanar.

Centramo-nos no eu e corremos todo o dia sem nunca alcançar a meta. Maratona atrás de maratona a encolher a alma. Até que chegam as artroses.

Acordamos e somos velhos!

O mundo é outro enquanto as competições continuam a decorrer. O sorriso é franco, a pele fina. Não é preciso agradar a ninguém. O suspiro é leve, o coração paciente e o tempo limitado.

“Lembra-te Homem que és pó e ao pó hás de voltar.”

Lembra-te, Homem, que por cá não és flor perene. Sê inteiro! Antes que de ti se desintegrem os sonhos, antes que as folhas se desprendam, antes que as pétalas murchem e a luz se apague!

 

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