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O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

Esquartejada

Vai longe o tempo em que a vida era feita de sonhos a desvendar.

Hoje, a história é outra e o café já não se bebe no encosto da janela com vista para o mar.

Trocamos promessas, trocamos sorrisos e alianças pelos dedos fora. Escrevemos poemas, bebemos do cálice a jura deste amor.

Já não te conheço, já não te entendo, já não te quero.

Elipse tua, analepse minha, presente sem cronologia elucidativa.

Enganei-me. Enganaste-me.

Não tenho bem a certeza.

O estanho sente-se a quebrar, a madeira em falha, os soluços em repressão.

Lábios em formatura até à convexão do riso altruísta, sonhador, visionário, perfeito de outrora.

Fomos dois corpos num só caminho que se fragmentou em pedaços inconsequentes de amor louco, varrido e sem ideias.

 

Os miúdos estão lá dentro. Dormem em paz, mas sem sossego.

Os teus gritos ainda ecoam na minha mente, nesta casa de paredes duplas e telhados de vidro.

Ontem, foi a décima primeira vez. Olhos raiados de sangue, perdigotos de uma alma imunda, imersa na cólera de um dia menos bom, projeção de uma dor sem fim à vista.

Perdeste mais um cliente e eu ainda não tinha engomado a camisa branca e imaculada de todas as ocasiões.

Penso que foi isso, mas não me lembro de todos os atentados que a minha existência representa para ti.

Suspiro e sou uma fraude, uma traidora que nada mais merece a não ser a morte, o fim da brincadeira, o basta, o nunca mais!

Era urgente!

Um motivo para explodir, era urgente.

Sempre tão aliciante na tua vida. Sempre tão rotineiro. Sempre um pedaço de lazer.

Como sempre, pedi desculpa e mantive-me firme como mãe, como mulher, como fortaleza sem lágrimas a verter.

Já não as tenho para ti.

- “Para com isso, André! Não tenho culpa que o dia te tenha corrido mal. Agora, vê se te acalmas porque não tarda muito os miúdos chegam da escola e eu não quero que eles te vejam nesse estado.

Se precisas assim tanto da camisa, eu vou engomá-la.”

Instantes decorreram e um silêncio abrasador invadiu a cozinha que flamejava e emanava os aromas típicos das compotas caseiras que eu costumava cozinhar para dar às crianças e aos vizinhos mais queridos.

Entretanto, um homem em rebuliço. Cadeiras pontapeadas e um para trás e para a frente irritante, consecutivo, inconsequente.

O pavor instalou-se e apoderou-se do meu íntimo em desassossego, assim que me voltei para ir buscar os frascos esterilizados que acolheriam as cores vivas das polpas de fruta em ebulição.

- “Para com isso?! Para com isso, minha vaca? É isso que me dizes? Não me digas que estás à espera que eu te obedeça.” – Disse-me sem pensar. Por querer. Por ser assim. Somente assim.

E eu não respondi, são parcas as palavras para a demência propositada.

Também, a verdade é que não precisei. Era tudo demasiado retórico e discurso ganhara um fio condutor típico de quem mais não sabe onde pertence e porque existe.

“Corre-te sempre tudo bem, não é? És a mulher perfeita. Aplausos, sorrisinhos, piropos à grande e à francesa. E tu gostas, sua oferecida! Escreves uns artigos, tomas uns cafés com os estagiários da redação e aqui o burro passa por ignorante, por irresponsável, por falido, por inútil, não é minha porquinha?” – A voz era rouca, grave, sem escrúpulos. As palavras brotavam de longe, das entranhas do horror, do outro lado que nunca, até então, eu descobrira.

Encostada ao balcão, o medo aproximava-se como a face daquele homem musculado com quem decidi partilhar a vida.

Estávamos tão perto.

Mas tão longe do fim.

O advogado, sem argumentos justos e flexíveis, tornava-se a cada segundo um pouco mais indomável, um pouco mais imprevisível. Louco, por certo.

A discussão continuava, como a faca de cortejar legumes que havia por ali, ao alcance do desespero.

André tomou-a, apertou o meu pescoço e ameaçou-me.  

- “Eu mato-te. Eu mato-te, sua vaca!” – O tom subia à medida que o medo irradiava a minha face.

- “Comigo não brincas, não me vais andar a encornar. Não me vais andar a trair. Porque eu não sou um brinquedo. Eu mato-te, ouviste?”

Não fazia eu outra coisa a não ser ouvir-te. Cada ameaça, cada insulto, cada segundo ao teu lado roubava-me o oxigénio, exterminava o resquício de paz que, mesmo em dias mais cinzentos, sempre procurei. Tudo o que dizias era tão inacreditavelmente possível…

Entretanto, bateram à porta. Era a Rita e o Francisco. Os nossos filhos.

O pesadelo cessou as suas investidas. O silêncio instalou-se. O vulto recolheu-se rumo ao escritório.

- “A mãe já abre, meninos” – tranquilizei-os.

Entretanto, lavei e limpei a minha cara e fiz com que tudo parecesse normal.

Uma vez mais e por enquanto eram eles, os tesouros de duas vidas em comum, os rebentos de uma família aparentemente feliz, que acalmavam os demónios.

Abri-lhes a porta. Abracei-os com toda a minha alma e sorri-lhes como se estivesse neles a esperança e o caminho para a minha salvação.

 

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