Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

O meu poema

O blog em que o sonho é o principal verso da vida. O ser humano na sua essência. Os sentimentos à flor da pele. O tudo e o nada.

De pedra e cal

Estou de pedra e cal.

De óculos escuros, colocados no cocuruto deste cabelo vasto e emproado, vestida de preto, toda de preto e impenetrável na firmeza incontestável destes lábios vermelhos, carnudos, definidos, fatais e irresistíveis.

Estou sentada à beira rio, de cabelos ao vento e histórias ao de leve.

Sem expressão exata, pensamento lógico ou motivo pertinente.

Estou ali como quem não está em lugar nenhum senão dentro de si mesma, senão dada ao mundo inteiro, numa introspetiva feliz, nostálgica, amena e melancolicamente refrescante.

Pernas cruzadas, postura singular: o limiar da elegância em sintonia com o sol de inverno que se espelha no oculto sobreposto aos meus olhos, também eles negros de mistério.

 

A brisa varre, aleatória e despreocupadamente, as folhas amareladas pelo rossio como o meu olhar varre a baixa procurando o limite do seu espaço frio, quente e atérmico, talvez.

A força de atrito impõe-se, as bebidas arrefecem, as bicicletas rangem, o céu empalidece e o violoncelo projeta a magnificência do sol que se põe.

Estou impávida e serena. A contemplar a Natureza. A contemplar a vida no seu estado puro.

Inspiro. Expiro. Observo. Escuto. Cheiro. Sinto.

Um mundo à parte: um banco, um jardim, uma alma e uma mente cheia de sonhos a perder de vista.

Barcos rabelos, pontes despidas, casas ocultas, janelas abertas.

Vivo, sem me aperceber, aquela vida em que tudo acontece. Os bolos que caem acidentalmente ao chão, os olhares desapontados, o choro das crianças, a alegria dos animais com o rabo a dar a dar, o som daquelas cordas divinas, o som do meu próprio ser, o cheiro a pão quente, o cheiro a mar distante, a galáxia desconhecida, a vida passageira.

Vivo longe de mim e chego a todos os que observo como as pedras da calçada.

E continuo de pedra e cal, a recordar as memórias de cada acorde, os momentos de cada abraço.

Abraço apertado que esmigalha, sufoca, amarra, aperta, magoa, acaricia e tanto ama.

Fico ali, até ao anoitecer, a recordar os sentimentos expressos desmedidamente. O medo da perda, do adeus permanente. O medo da noite eterna e do dia demorado.

Fico ali, em asas de algodão, de mãos frias a congelar, embevecida à espera do luar, de um novo dia, de um mesmo rio, de um mesmo sonho, de um mesmo abraço.

 

4 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

Seguir perfil

A ler:

Calendário

Fevereiro 2016

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
2829

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D